CRÔNICAS DO BOLERO PERDIDO
Capítulo I – A Contratação Acidental da Banda de Praia Nunca fui homem de desconfiar das gravadoras. Naquele tempo, elas ainda tinham portas de madeira pesada, ventiladores de teto que giravam mais por obrigação do que por eficiência e produtores que apertavam nossa mão olhando firme nos olhos. Isso bastava para inspirar confiança. Naquela terça-feira, saí de casa levando debaixo do braço uma pasta de papel pardo. Dentro dela estava um bolero. Não era um bolero qualquer. Pelo menos para mim. Passei semanas escolhendo palavras, cortando versos e brigando com acordes que insistiam em desafinar só para me contrariar. Quando cheguei à gravadora, o produtor leu a primeira página, acendeu um cigarro, fez aquele silêncio que todo compositor teme e, por fim, sorriu de lado. — Deixe comigo. Amanhã o senhor ouvirá uma gravação de primeira. Saí dali com a leveza de quem acredita que o destino, pela primeira vez, resolvera colaborar. Foi exatamente nesse momento que ouvi uma algazarra v...