Setenta Dias

 


Hoje fazem setenta dias.

A vida continua — como continuou ontem, como continuará amanhã. O sol nasce, a noite chega, o mundo segue seu curso. Mas dentro de mim, há uma ausência que não acompanha o calendário.

Eu nunca senti tanta saudade de um bicho como sinto da Mel. Talvez porque eu esteja sempre sozinho. Talvez porque ela não fosse apenas um animal. Era presença. Era companhia que não exigia palavras. Era silêncio compartilhado.

Dizem que o tempo passa e a gente esquece.
Comigo não funcionou.

Tudo me lembra ela. O canto da casa. O espaço ao lado da cadeira. O barulho que não existe mais. A companhia pode se fazer com qualquer coisa — um rádio ligado, uma televisão acesa —, mas eu tinha a Mel. E isso bastava.

Acho que ela era um anjo. Tenho certeza.
Foi uma das coisas mais estranhas que já vivi: vê-la partir. Um teste para quem precisa aguentar tudo e, ainda assim, continuar. Deus me deu isso também. E eu agradeço — mesmo sem entender completamente.

Na hora de ir, ela saiu da sua caminha e foi para baixo da mesa do computador. Deitou-se ali. Eu a peguei e levei para fora. Em meus braços, ela olhou para os lados, depois olhou para mim… e chorou. Chorou de verdade. Pequenas lágrimas escorreram e molharam meus braços.

Coloquei-a de volta na caminha, mas ela não ficou. Voltou para baixo da mesa e ali se deitou novamente. Já muito cansada, esticou o corpinho. Eu passei a mão sobre ela, e parecia que havia algo que ainda nos prendia.

Então eu disse:
— Pode ir, Mel. Sua jornada termina aqui. Vá em paz.

Ela suspirou fundo.
E se foi.

A vida continua — dizem.
Mas há partidas que dividem o tempo em antes e depois.

E faz setenta dias que eu aprendo a viver no depois.

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