O Peso do Manto e a Luz do Castelo


Como todo mundo sonha, esta noite eu fechei os olhos na minha cama, mas acordei em outro século. O ar tinha cheiro de terra seca e a brisa trazia o som distante de sinos. Ao olhar para baixo, não vi meu pijama, mas o brilho gasto de uma malha de aço e o branco de um manto marcado pela estrada, ostentando a cruz vermelha da Ordem.

Desta vez, sonhei que eu era um Cavaleiro Templário.

Mas eu não era um jovem recruta em busca de glória passageira. Eu sentia no corpo a solidez dos anos. Minha barba, já branca como a neve, roçava no gorjal de metal. Minhas mãos seguravam a espada não com a fúria da juventude, mas com a firmeza de quem conhece a batalha e sabe que a verdadeira vitória é a paz.

Eu caminhava por uma estrada de terra batida, ladeada por muros de pedra antiga e árvores retorcidas pelo vento. Meus passos eram firmes dentro das botas de couro, cada pisada uma marca de quem já percorreu lugares distantes, de areias do deserto a invernos rigorosos. Eu me sentia pleno, uma força que ia além do físico, uma sabedoria gravada na alma.

Ao levantar os olhos, eu o vi.

No alto da colina, banhado pela luz dourada de um pôr do sol que parecia incendiar o céu, estava o castelo. Não era apenas uma fortaleza de pedra; era a minha conquista. As torres se erguiam imponentes, não como um refúgio para descansar, mas como um trono para quem triunfou sobre a jornada.

Enquanto subia a estrada sinuosa, percebi que aquele caminho era a minha própria vida. As pedras no chão eram os alicerces que construí. O vento contra o rosto era o combustível que me impulsionava. E a espada na cintura... a espada não era um peso, mas o símbolo da minha capacidade de proteger o que é certo, de cuidar dos meus, de me manter inabalável.

Eu parei por um momento, respirei fundo e senti um orgulho silencioso. Não havia dúvida, apenas uma serenidade absoluta. Eu era um guardião. Eu estava exatamente onde deveria estar.

Ouvi uma voz, ou talvez fosse apenas o meu pensamento, sussurrar o lema antigo: "Non nobis, Domine, sed nomini tuo da gloriam" (Não a nós, Senhor, mas ao teu nome dá glória). Eu entendi, naquele sonho, que a glória não estava na vaidade, mas na honra de permanecer de pé, forte e digno, não importa o tempo que passasse.

Quando cheguei aos portões do castelo, a luz do sol tocou meu rosto. Senti um calor vitorioso.

Acordei.

O castelo se desfez, a armadura sumiu e eu estava de volta à minha casa. Mas, ao me levantar para preparar o meu café, senti que algo havia mudado. A coluna estava mais ereta. O olhar no espelho tinha um brilho diferente.

Eu não precisava da cota de malha ou da espada física. A força, a honra e a resiliência daquele Cavaleiro Templário não ficaram no sonho. Elas acordaram comigo. Elas sempre estiveram aqui.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

No Silêncio: onde Deus escuta

Temos um Ano Todo pela Frente

O DOM DA VIDA