A GEOGRAFIA DO HOMEM

 


A GEOGRAFIA DO HOMEM

O homem passa a vida inteira se encontrando.
É quase um GPS emocional ambulante.
Muda a idade, muda o endereço, muda até o jeito de levantar da cadeira… mas ele continua aparecendo nos mesmos tipos de lugar.

Quando menino, o habitat natural do homem é a praça.
Ali ele vive solto, correndo igual cachorro que fugiu do banho.
A infância masculina basicamente consiste em três atividades: cair, levantar e dizer que não doeu.

O joelho do menino parece carro de rally.
Nunca está inteiro.

Na praça surgem amizades profundas construídas com base em absolutamente nada.
Bastava um olhar torto pra bola e pronto: nascia uma irmandade eterna.

Depois o homem cresce e começa a se encontrar nos bailes, nas festas, nas “vibes”.
Antigamente chamavam de tertúlia, que era o jeito elegante da sociedade dizer:
“vamos todo mundo fingir compostura até alguém começar a dançar errado.”

O jovem homem nessa fase acha que é imortal.
Dorme três horas, bebe mistura de procedência duvidosa, passa perfume até na alma e sai convencido de que é irresistível.

É a única fase da vida em que um cidadão usa camisa brilhando no escuro e ainda se sente bonito.

O incrível é a confiança masculina.
O sujeito penteia três fios de cabelo pra trás, coloca um sapato bicudo assassino de coluna e já sai na rua se achando um galã internacional.

Depois vêm os anos sérios.
O homem entra na fase do mercado, da fila do restaurante e da loja de material de construção.

É impressionante como o homem amadurece até descobrir promoção de café.

Ali nasce outro ser humano.

O cidadão que antes virava madrugada agora compara preço de sabão em pó com a concentração de um pesquisador da NASA.

O homem também desenvolve um romance inexplicável com loja de ferramenta.

Aquilo não é comércio.
É parque de diversões masculino.

Homem entra pra comprar um parafuso e sai quarenta minutos depois analisando uma furadeira como quem estuda tecnologia espacial.

E existe uma verdade absoluta:
se aparece uma ferramenta nova, o homem não sossega enquanto não entender exatamente pra que serve, como funciona e quantos vídeos precisa assistir pra dominar aquilo.

Porque homem tem uma confiança curiosa.

Ele pode nunca ter mexido num equipamento na vida…
mas depois de dois tutoriais e um café forte, já se sente praticamente um engenheiro industrial.

Outro fenômeno curioso é que, com a idade, o homem começa a parar em qualquer canto pra conversar.

O trânsito para.
A vida segue.
O mundo gira.
E dois homens continuam bloqueando a passagem enquanto analisam um vazamento que nenhum dos dois vai consertar.

Mas o verdadeiro último nível da existência masculina chega mais tarde.

Porque o homem não envelhece.
Ele apenas troca os pontos de encontro.

A praça vira clínica.

O baile vira sala de espera.

A vibe vira farmácia.

E a conversa muda completamente.

O sujeito que antes falava de aventura agora fala do resultado da glicose com brilho nos olhos.

O homem depois dos cinquenta adora exame.
Ele abre envelope de laboratório com emoção de quem recebeu convocação pra Copa do Mundo.

E remédio vira coleção.

Tem homem que carrega mais comprimido que um pequeno hospital municipal.

A farmácia, inclusive, virou a nova praça pública masculina.

É o único lugar onde alguém entra pra comprar vitamina e sai quarenta minutos depois debatendo pressão arterial, próstata, refluxo e o preço absurdo do colágeno.

E mesmo diminuindo fisicamente — porque chega uma hora em que todo homem começa a caminhar pensando antes de sentar — ele continua se encontrando.

Continua parando.

Continua contando história repetida.

Continua rindo alto.

Continua esquecendo o motivo pelo qual entrou no cômodo.

Porque no fundo o homem é isso:
uma criatura social que passa a vida migrando de fila em fila.

Primeiro na fila do campinho.
Depois na fila do bar.
Depois na fila do mercado.
E finalmente na fila da clínica segurando uma pasta cheia de exames e pensando:
essa garantia de fábrica claramente veio sem manual.😊


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