O Ano Todo
Existe um dia no calendário para lembrar dos
pais.
É bonito.
Nesse dia, aparecem fotografias antigas,
mensagens carinhosas, abraços, almoços em família e aquelas frases que parecem
ter sido guardadas durante meses para caber todas de uma vez.
“Feliz Dia dos Pais.”
E o pai sorri.
Alguns recebem presentes. Outros recebem uma
ligação. Outros recebem apenas uma mensagem pelo celular.
E está tudo bem.
A vida anda corrida.
Os filhos trabalham, estudam, criam os
próprios filhos, pagam contas, enfrentam problemas que os pais nem sempre
conhecem.
A vida vai acontecendo.
E talvez seja justamente esse o problema.
Ela vai acontecendo tão depressa que, quando
percebemos, algumas pessoas que estavam sempre por perto já ficaram longe.
Há pais que passaram décadas acordando antes
do sol.
Trabalharam de segunda a sábado.
Muitos fizeram um pouco de tudo.
Foram pedreiros, motoristas, agricultores,
vendedores, mecânicos, vigias, comerciantes.
Foram também enfermeiros quando um filho ficou
doente.
Motoristas quando alguém precisava chegar a
algum lugar.
Conselheiros quando ninguém sabia o que fazer.
E, muitas vezes, foram apenas aquela pessoa
que estava ali.
Sem profissão definida para aquilo.
Só pai.
Os filhos cresceram.
Isso é bom.
Era para isso que eles trabalhavam.
Ver o filho crescer é uma das maiores vitórias
de um pai.
Só que crescer também significa ir embora.
Uma mudança de cidade.
Um casamento.
Um emprego.
Uma nova família.
Uma nova rotina.
E, pouco a pouco, aquela casa que antes
parecia pequena começa a parecer grande.
Não acontece de uma vez.
É uma cadeira que fica vazia.
Depois outra.
É um almoço que deixou de ter barulho.
É uma festa que passou a acontecer em outro
endereço.
É um domingo que ficou mais silencioso.
Hoje existe uma coisa curiosa.
Muitas famílias continuam juntas sem estarem
perto.
Estão dentro de um grupo de celular.
Ali tem fotografia, aniversário, notícia,
figurinha, vídeo dos netos e mensagens de “bom dia”.
É uma forma de estar presente.
E é uma coisa boa.
Mas uma tela não ocupa uma cadeira.
Uma chamada não toma café.
Uma fotografia não conversa.
E ninguém está dizendo que os filhos não amam
seus pais.
Talvez amem muito.
Talvez simplesmente não percebam que o tempo
também passa para quem ficou esperando.
Porque pai também envelhece.
Só que pai tem uma mania estranha.
Quase nunca avisa.
Ele continua dizendo:
“Estou bem.”
“Não precisa se preocupar.”
“Quando puder, venha.”
“Está tudo certo.”
E talvez esteja mesmo.
Mas existe uma diferença entre estar bem e não
sentir falta.
No Dia dos Pais, muitos lembrarão.
E isso é bonito.
Mas o calendário continuará andando no dia
seguinte.
Virão a segunda-feira, a terça-feira, a
quarta-feira...
E depois outro domingo.
Talvez seja nesses dias comuns que more a
parte mais importante.
Não precisa de presente.
Não precisa de fotografia.
Não precisa de uma grande festa.
Às vezes basta uma visita.
Um café.
Uma conversa sem pressa.
Uma pergunta simples:
“Pai, como foi seu dia?”
Porque talvez essa seja uma das coisas que a
gente só entende tarde demais:
algumas pessoas não precisam que a gente faça
muito.
Precisam apenas que a gente esteja.
E ainda bem que o ano tem muitos dias.
O Dia dos Pais é apenas um deles.
Chagas Barros

Comentários
Postar um comentário