CRÔNICAS DO BOLERO PERDIDO

 




Capítulo I – A Contratação Acidental da Banda de Praia

Nunca fui homem de desconfiar das gravadoras. Naquele tempo, elas ainda tinham portas de madeira pesada, ventiladores de teto que giravam mais por obrigação do que por eficiência e produtores que apertavam nossa mão olhando firme nos olhos. Isso bastava para inspirar confiança.

Naquela terça-feira, saí de casa levando debaixo do braço uma pasta de papel pardo. Dentro dela estava um bolero. Não era um bolero qualquer. Pelo menos para mim. Passei semanas escolhendo palavras, cortando versos e brigando com acordes que insistiam em desafinar só para me contrariar.

Quando cheguei à gravadora, o produtor leu a primeira página, acendeu um cigarro, fez aquele silêncio que todo compositor teme e, por fim, sorriu de lado.

— Deixe comigo. Amanhã o senhor ouvirá uma gravação de primeira.

Saí dali com a leveza de quem acredita que o destino, pela primeira vez, resolvera colaborar.

Foi exatamente nesse momento que ouvi uma algazarra vindo da esquina.

Olhei por curiosidade.

Era um grupo de músicos atravessando a rua.

Uns levavam instrumentos nas costas, outros debaixo do braço. Havia um cavaquinho, um pandeiro, um saxofone que brilhava mais do que o sol daquela tarde e um rapaz carregando um violão como quem leva uma rede para passar o dia na praia.

Iam rindo.

Falando alto.

Um deles assobiava uma marchinha.

Outro carregava uma bola de futebol.

Confesso que achei a cena simpática.

Pensei comigo:

— Ainda bem que meu bolero já está em boas mãos.

Segui meu caminho sem imaginar que aquele pensamento envelheceria antes mesmo do pôr do sol.

Anos depois, refletindo sobre aquele dia, cheguei à conclusão de que a vida sempre avisa quando vai aprontar alguma. O problema é que ela avisa de um jeito tão discreto que a gente confunde o aviso com uma simples coincidência.

Naquele instante, eu apenas vi uma banda atravessando a rua.

Não fazia ideia de que estava assistindo, sem pagar ingresso, ao primeiro ensaio da maior confusão musical da minha vida.

Continua...

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