O Voto: 33 Eleições e a Esperança de um Brasil Melhor


 

O VOTO

Eu moro no Rio de Janeiro há muito tempo. Não nasci aqui, sou de outras bandas. Cheguei de outros caminhos, trazendo comigo minhas histórias, minhas lembranças e aquela curiosidade de quem chega a um lugar querendo descobrir o que a vida tem para oferecer.

Vi muitas coisas acontecerem. E vi muitas outras deixarem de acontecer. Essas últimas, quase sempre, ficaram nas promessas.

Nesse tempo todo, vi bairros se desenvolverem, crescerem para todos os lados: norte, sul, leste e oeste. Para cima e para baixo. Vi ruas mudarem de cara, casas desaparecerem para dar lugar a prédios e lugares que antes pareciam distantes se tornarem parte da cidade. O Rio foi mudando diante dos meus olhos, como muda a vida da gente, às vezes para melhor, outras nem tanto.

Vi muitas coisas boas acontecerem. E muitas ruins também.

Vi o primeiro Rock in Rio, com suas músicas inesquecíveis e bandas que ficaram na história. Guns N’ Roses, com aquela “Patience”, que até hoje mora na memória de muita gente. Eu não sabia nada de inglês, mas cantava mesmo assim. Ou tentava. A pronúncia devia ser uma desgraça, mas quem estava preocupado com isso? O importante era cantar, sentir a música e fazer parte daquele momento.

O tempo passou. Vieram outros shows, outras músicas, outros acontecimentos. E, no meio de tudo isso, vieram também as eleições.

Pois bem, falando assim, já votei 33 vezes, contando com essa última eleição.

Trinta e três vezes!

E, por incrível que pareça, votar nunca perdeu completamente a graça para mim.

Sempre foi uma espécie de festa. Não uma festa de bandeiras, discursos ou promessas de campanha. É outra coisa. É aquela movimentação nas ruas, gente indo e vindo, conversas sobre política, opiniões diferentes e aquela expectativa de que, desta vez, alguma coisa possa mudar de verdade.

Eu já sei o caminho. Sei o que fazer, como chegar até a urna e como confirmar meu voto. Tudo parece simples, quase automático. Mas existe uma coisa curiosa: quando chega a minha vez, sinto uma sensação parecida com a da primeira eleição.

Talvez seja pela responsabilidade.

Porque votar não é apenas apertar meia dúzia de números e ir embora para casa. É colocar, por alguns segundos, uma parte do nosso futuro nas mãos de alguém. É escolher quem vai tomar decisões que afetam a nossa vida, o nosso dinheiro, a nossa cidade e o nosso país.

E é aí que a coisa fica séria.

Ao longo desses anos, ouvi promessas de todo tipo. Prometeram melhorias, segurança, saúde, educação, transporte e uma vida melhor para o povo. Algumas coisas aconteceram, é verdade. Outras ficaram pelo caminho. E certas promessas parecem ter uma vida muito curiosa: aparecem com força durante a campanha, desaparecem depois da eleição e só voltam a dar as caras quando o próximo pleito se aproxima.

É quase uma tradição.

O candidato bate à nossa porta, aperta nossa mão, sorri para a fotografia e parece conhecer todos os problemas do mundo. Depois de eleito, às vezes, parece esquecer até o endereço de quem o colocou lá.

Mas não vou dizer que todo político é igual. Seria fácil demais. O problema é que, depois de tantas eleições, a gente aprende a desconfiar das palavras bonitas e a prestar mais atenção no que foi feito.

Afinal, promessa não paga conta, não enche geladeira, não melhora hospital e não resolve o problema de quem sai de casa de madrugada para trabalhar e volta à noite sem saber como vai fechar as despesas do mês.

E o povo sabe disso. Pode até esquecer muita coisa, mas o bolso tem uma memória extraordinária.

Mesmo assim, eu continuo votando.

Talvez porque ainda veja naquele gesto uma oportunidade. Talvez porque, apesar de tantas decepções, eu não tenha perdido a esperança de que as coisas possam ser melhores. Ou talvez porque entenda que, se o voto é uma responsabilidade, desistir dele também tem suas consequências.

Não sou ingênuo. Já vivi o bastante para saber que o mundo não muda só porque alguém apertou um botão numa urna. A mudança exige trabalho, cobrança, participação e, principalmente, memória. É preciso lembrar o que foi prometido, observar o que foi feito e não tratar político como ídolo de futebol.

Político não está lá para nos fazer um favor. Está lá para cumprir uma função pública. E nós não somos seus súditos. Somos cidadãos.

O voto nos dá o direito de escolher. Mas também nos dá o dever de acompanhar.

E tem uma coisa que aprendi nesses muitos anos de Rio de Janeiro: a cidade muda, os bairros crescem, os prédios sobem, as ruas se transformam e as gerações passam. Mas alguns problemas parecem ter encontrado um jeito de envelhecer sem perder o emprego.

Mudam os nomes, mudam os discursos, mudam as fotografias dos cartazes. Só a esperança do eleitor continua chegando novinha em folha, eleição após eleição.

E talvez seja justamente aí que esteja a beleza e o perigo de votar: a gente sempre pode acreditar que a próxima escolha será melhor. Mas não pode permitir que essa esperança nos faça esquecer as escolhas anteriores.

Trinta e três vezes diante de uma urna. Trinta e três oportunidades de participar de uma decisão coletiva. E, em cada uma delas, aquela sensação de estar fazendo algo importante.

Porque é importante.

O voto é pequeno no gesto, mas enorme na responsabilidade. Não garante que o escolhido será bom, não transforma promessas em realidade e não resolve todos os problemas de uma cidade ou de um país. Mas é uma das ferramentas que temos para escolher os caminhos que queremos seguir.

Por isso, continuo indo votar. Sem achar que sou dono da verdade, sem acreditar em salvadores da pátria e sem confundir discurso bonito com trabalho bem-feito.

Vou porque é meu direito. Vou porque é minha responsabilidade. E vou porque, mesmo depois de tantas eleições, ainda quero acreditar que podemos fazer escolhas melhores.

Só espero que um dia as promessas envelheçam mais depressa do que a paciência do eleitor.

E, se isso acontecer, quem sabe, numa próxima eleição, eu possa sair da seção eleitoral com aquela velha sensação de primeira vez e dizer:

Desta vez, parece que valeu a pena.

Porque votar é escolher. Mas saber em quem votamos, cobrar o que foi prometido e reconhecer o que foi feito é o que dá sentido à escolha.

E depois de 33 eleições, meu amigo, uma coisa eu aprendi: o voto dura alguns segundos. As consequências podem durar anos.

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