O Frio Chegou Primeiro que a Assombração


      O Frio Chegou Primeiro que a Assombração

Cheguei em casa depois da aula com os pequenos.

Muita gente acredita que um professor de karatê passa os dias ensinando socos, chutes e defesas.

Não deixa de ser verdade.

Mas, com o tempo, descobri que as técnicas são apenas a parte visível do trabalho.

O verdadeiro desafio quase sempre acontece antes.

Antes do primeiro golpe.

Antes da primeira saudação.

Antes mesmo da criança acreditar que consegue.

Alguns dos meus alunos vivem em mundos muito particulares.

Cada um carrega um jeito único de enxergar a vida.

Alguns chegam falando sem parar.

Outros chegam em silêncio.

Alguns correm para o tatame.

Outros observam tudo de longe antes de dar o primeiro passo.

Aprendi que não existe chave para abrir esses mundos.

Existe apenas respeito.

Para entrar neles é preciso receber permissão.

E essa permissão não vem da faixa que amarra a cintura.

Nem dos anos de experiência.

Ela nasce da confiança.

Às vezes uma aula inteira produz um avanço tão pequeno que quase ninguém percebe.

Um olhar.

Um sorriso.

Uma tentativa.

Uma participação.

Mas quem trabalha com crianças sabe que certas vitórias são medidas em milímetros e celebradas como quilômetros.

Naquela noite saí da academia com o coração tranquilo.

Cansado.

Mas tranquilo.

Pensando em como cada criança traz consigo uma maneira única de caminhar pela vida.

Pensando em como tenho a sorte de acompanhá-las por um trecho desse caminho.

Cheguei em casa carregando todas essas reflexões.

Mas também carregando outra coisa.

Frio.

Muito frio.

Um frio que parecia ter vindo diretamente das montanhas do Himalaia, feito uma conexão no Rio de Janeiro e resolvido passar a noite na minha sala.

Tomei banho.

Erro estratégico.

Minutos depois já estava procurando cobertores pela casa como um explorador procurando água no deserto.

Primeiro veio um.

Depois outro.

Depois mais um.

Quando terminei, eu já não parecia um professor de karatê.

Parecia um rolinho de primavera humano.

A postura de guerreiro desapareceu.

O homem que passou a tarde ensinando equilíbrio agora caminhava pela casa encurvado, abraçado a si mesmo e negociando com o vento.

Toda a filosofia marcial foi resumida a um único objetivo:

sobreviver até a hora de dormir.

Foi então que me vi refletido na janela.

Uma figura silenciosa.

Enrolada até o pescoço.

Movendo-se lentamente pela casa.

Por um instante compreendi por que as histórias de assombração fazem tanto sucesso.

Porque naquela aparência havia alguma coisa de fantasma.

Mas logo percebi um detalhe importante.

Nenhuma assombração seria capaz de enfrentar aquele frio.

Na verdade, se existisse algum fantasma vagando pela vizinhança naquela noite, provavelmente estaria procurando um cobertor também.

E foi assim que entendi o que realmente estava acontecendo.

Não era uma noite de assombração.

Era uma noite em que até as assombrações teriam ficado em casa.

Porque, naquela noite gelada, o frio chegou primeiro que a assombração.

 

Chagas Barros



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