Um Dia, Inacreditável
Hoje o dia começou com uma notícia difícil.
Acabou a tapioca.
Pode parecer pouco para algumas pessoas, mas
para quem acorda já pensando no café e na tapioca, a situação merece ao menos
uma reunião de emergência, de mim e minha mente.
Não fiquei desesperado. Apenas constatei o
fato.
Afinal, aprendi há muito tempo que não adianta
sofrer três vezes pela mesma coisa: ontem, hoje e amanhã.
Olhei para a situação e pensei:
— Tudo bem. Vamos de plano B.
O plano B chamava-se cuscuz.
Até aí, tudo sob controle.
Coloquei a cuscuzeira no fogo, a água começou
a esquentar e eu já me sentia um estrategista da sobrevivência doméstica.
Foi então que o gás acabou.
No exato momento em que tudo começava a
funcionar.
Fiquei olhando para o fogão em silêncio.
O fogão olhava para mim.
Nenhum dos dois tinha solução imediata.
Mas eu tinha uma lata velha, alguns pedaços de
carvão e uma ideia.
Hoje eu descobri que a combinação dessas três
coisas pode ser perigosa.
Levei a lata para dentro de casa e improvisei
um fogareiro sobre o fogão.
Parecia uma invenção revolucionária.
Na minha cabeça.
Na prática, o carvão estava molhado.
Passei quase vinte minutos tentando fazer o
fogo pegar.
Álcool.
Papel.
Paciência.
Mais álcool.
Mais paciência.
Nada.
Foi então que tive uma ideia brilhante.
Quando uma ideia começa com essas palavras,
normalmente é melhor desistir.
Mas eu continuei.
Peguei um secador de cabelo.
A lógica parecia perfeita.
Se o vento ajuda a acender o fogo, um secador
ajudaria mais ainda.
Na teoria, sim.
Na prática, não.
Mais álcool.
Mais uma tentativa.
Acendi o isqueiro.
E então...
BUUUM!
O fogo resolveu aparecer de uma só vez.
Os pelos dos meus braços foram promovidos
instantaneamente à condição de fumaça.
Tomei um susto daqueles que fazem a pessoa
repensar todas as decisões que tomou na vida.
Mas o fogo pegou.
E isso era o que importava.
Ou pelo menos era o que eu achava.
Já que o cuscuz estava garantido, decidi
melhorar o cardápio.
Pensei:
— Vou fritar dois ovos.
O raciocínio parecia impecável.
Coloquei a frigideira sobre a lata.
O fogo apagou.
Descobri naquele momento que o carvão também
aprecia oxigênio.
Nova ideia.
O secador de cabelo voltou à ativa.
Liguei o aparelho e direcionei o vento para as
brasas.
O resultado foi impressionante.
Cinzas.
Faíscas.
Poeira de carvão.
Tudo voando pela casa.
Lembro de olhar para o chão.
Meu piso era branco.
Ou pelo menos tinha sido branco em algum
momento da história.
Naquele instante, ele havia adotado uma nova
identidade visual.
Foi quando percebi que talvez fosse uma boa
ideia levar o fogareiro para a varanda.
Peguei tudo e fui.
Ao olhar para trás, encontrei uma quantidade
respeitável de fumaça espalhada pelo apartamento.
Foi nesse momento que surgiu um pensamento
preocupante:
— Daqui a pouco os vizinhos chamam os
bombeiros.
Pouco depois ouvi uma sirene.
Confesso que meu coração acelerou.
Pensei:
— Pronto. Chegaram.
Mas não.
Passaram direto.
Nunca fiquei tão feliz em ver um caminhão de
bombeiros indo embora.
No final de toda essa epopeia, o resultado foi
alcançado.
Comi meu cuscuz.
Comi meus ovos.
Talvez tenham levado um leve aroma de fumaça e
aventura.
Mas estavam ótimos.
Depois sentei e comecei a rir.
Rir muito.
Porque naquele momento percebi uma coisa.
O dia tinha tentado de tudo.
Primeiro acabou a tapioca.
Depois acabou o gás.
Depois acabou a luz.
O carvão estava molhado.
O fogareiro era improvisado.
O secador virou ferramenta de sobrevivência.
Os pelos dos braços desapareceram em serviço.
E mesmo assim, nada tinha dado realmente
errado.
Tudo voltou ao normal.
O gás chegou.
A luz voltou.
A casa foi limpa.
E eu fiquei com uma história muito melhor do
que teria se tudo tivesse acontecido conforme o planejado.
Talvez essa seja uma das vantagens de não
aumentar os problemas.
Eles continuam sendo problemas.
Mas não precisam virar tragédias.
Hoje eu não tive tapioca.
Tive uma aventura.
E, sinceramente, foi muito mais divertido.
Chagas Barros

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